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A revolução Trumpista e o país do futebol

Países tecnologicamente dependentes e com moeda não conversível precisam de dólares para fechar suas contas e evitar perda de reservas cambiais.

*Ranulfo Vidigal

O novo presidente americano considera a soberania da maior nação do planeta enfraquecida, pela perda do poder industrial, pelo questionamento do dólar como equivalente geral das transações comerciais e financeiras internacionais e pelo duplo déficit americano – comercial e fiscal.

Trump preocupa-se com o desemprego industrial resultante do dólar forte que fez com que empresas saíssem dos EUA, na busca dos países com menores salários e menor resistência sindical e ambiental. Daí a adoção de tarifas.

A longa tradição protecionista na política econômica americana começa, no século XIX com Alexandre Hamilton se opondo frontalmente ao liberalismo inglês. Hoje, as tarifas são as mais fortes das medidas econômicas do novo mandatário da Casa Branca.

E estão ao exclusivo escrutínio de Trump – que simplesmente pode impô-las ou retira-las ao seu bel prazer. Isso destrói, simplesmente, a ordem liberal e multilateral que vigora há oitenta anos, sob a liderança dos EUA e sob a supervisão da OMC, do FMI e do Banco Mundial.

No Brasil, os debates se concentram na definição do novo técnico da seleção canarinho e no respeito absoluto ao Novo Arcabouço Fiscal. Deixamos de liderar no quesito futebol e agora lideramos, com folga, na prática de juros reais estratosféricos garantidos pelo Banco Central. O capital adormecido, aquele não tem oportunidade de ganho na esfera real, busca o cobertor da Dívida Pública, regiamente remunerada pelo orçamento federal.

Para piorar, a aceleração do crescimento econômico, obtido nos últimos três anos, elevou o déficit em transações correntes do Balanço de Pagamentos para 3,3% do PIB. Ou seja, parte da nova demanda agregada formada nos anos recentes vaza para o exterior.

Some-se a isso, a fuga de capitais dos investidores brasileiros, que agora preferem ter seus ativos em moeda estrangeira. São fatores preocupantes para a equipe econômica de plantão.

Nesse contexto, dar um “cavalo de pau no transatlântico” é tarefa impossível para a nova diretoria do BC. Países tecnologicamente dependentes e com moeda não conversível precisam de dólares para fechar suas contas e evitar perda de reservas cambiais.

Nesse quadro, a coalisão entre rentistas, mineradoras e agronegócio se fortalece e tende a aprofundar o processo de enfraquecimento industrial do Brasil, aparentemente abortando qualquer tentativa de reindustrialização – compromisso da ala desenvolvimentista presente nas propostas vencedoras na última eleição presidencial de 2022.

A contrapartida disso é uma grande contradição. Presenciamos, ao mesmo tempo, a presença de um mercado de trabalho em franco dinamismo, mas com a primazia na criação de vagas que pagam baixos salários, como demostrou o estudo produzido pela EAESP/FGV.

Some-se a isso, um choque de preços nos alimentos que retira poder de compra das famílias de baixa renda e esvazia a popularidade do governo federal.

*Ranulfo Vidigal – economista

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