Prioridades invertidas. Observe-se entre 1930 e 1980, o Fundo Público fortalecia a indústria, após Plano Real prioridade passou a ser gastar.
*Ranulfo Vidigal
Poder é a capacidade de fazer com que os outros façam o que você quer, via coerção, incentivo pecuniário, ou atração/convencimento. A primeira vertente estaria na órbita do hard power, a segunda estaria associada a ganância do indivíduo maximizador de preferências legítimas, e a última seria o néctar do soft power.
Destaquei este primeiro parágrafo para facilitar a interpretação do amigo leitor, em relação ao clima de caos total que predomina na cena internacional. O novo presidente americano parece querer salvar o capital dos séculos XIX e XX (grandes empreendimentos imobiliários, grandes empresas de óleo e gás, grandes siderúrgicas), ainda que isso imponha sacrifícios aos setores líderes do século XXI – notadamente o time das Big Tech (Google, Amazon, Apple) e o capital fictício das Big Money (grandes bancos e fundos de derivativos).
Na periferia do sistema, o Brasil continua preso ao denominado Modelo Liberal Periférico (MLP). Onde predominam liberalização, privatização, desregulação, subordinação, vulnerabilidade externa estrutural e dominância do capital fictício sobre a gestão do Fundo Público, como aliás já expliquei, com detalhes, em artigos anteriores.
O MLP é estruturado mediante a liberação comercial, produtiva, tecnológica e monetário-financeira do país. Possui um Estado reformista que reduz direitos previdenciários e trabalhistas, privatiza ativos públicos estratégicos, desregulamenta o mercado de trabalho e reduz o poder de compra da força de trabalho brasileira, vis a vis a taxa efetiva de lucros.
O modelo fecha sua equação com uma posição subalterna no sistema econômico internacional e na insistência na lógica financista/rentista dominando a dinâmica macroeconômica. O episódio recente de tentativa atabalhoada de impor a tributação do IOF sobre remessas dos Fundos ao Exterior confirma o MLP.
As prioridades estão invertidas. Basta observar que, se entre 1930 e 1980, o Fundo Público subsidiava o fortalecimento da indústria nacional, após o Plano Real a prioridade passou a ser gastar, anualmente, 10% do PIB na forma de juros da Dívida Pública e subsidiar o mundo das finanças especulativas. O setor rentista nacional, atualmente, só aumenta sua posição na composição da riqueza nacional. O resultado concreto disso é baixa vitalidade produtiva, empregos precários, alta vulnerabilidade externa, alta desigualdade de renda e riqueza e forte ressentimento pela injustiça social predominante.
Este modelo econômico, destilado pelos especialistas, se fundamenta no individualismo metodológico, que sustenta que os mercados são autorregulados e eficientes, escondendo o funcionamento concreto da economia de monopólios sujeita a crises periódicas
Aproximam-se as eleições nacionais e estaduais e talvez chegue a hora de abordarmos com rigor os reais desafios modernos do colapso ambiental, da insegurança alimentar, da desigualdade social e das mudanças tecnológicas disruptivas que nos assolam.
Oxalá!
*Ranulfo Vidigal – economista





