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Tarifas, choques e insegurança geral

O cenário aparente de caos terá impacto direto sobre o comportamento da produção e do emprego em nossa economia. Nosso PIB é muito sensível, com relação às exportações.

*Ranulfo Vidigal

Para entender o conturbado tempo presente vou pedir ajuda de um brasileiro genial – Raul Seixas – que faria oitenta anos neste ano de 2025. Uma de suas letras dizia, simplesmente, que era melhor ele ser “uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pois é, quanta sabedoria e adequação aos dias atuais.

Senão vejamos: A proposta do novo presidente americano é usar a imposição de tarifas como arma para ganhos imediatos, bem como garantir renda de monopólio para seus aliados no campo empresarial atacando, em múltiplas frentes e, simplesmente, negando o multilateralismo exercido pela Organização Mundial do Comércio – OMC.

O líder americano trabalha com as tarifas como instrumento para impulsionar a agenda imaginada por ele para seu país. Uma primeira meta seria cobrar pelo fornecimento do guarda-chuva de segurança para o resto do mundo, através do complexo industrial militar e seu gasto público anual – na casa de 1 trilhão de dólares.

Isso tem forçado os países da OTAN, Japão, Coreia do Sul e Austrália a repensarem seus orçamentos militares substituindo meios de subsistência e de produção, pelo incremento dos chamados meios de destruição em massa (armamentos ultra sofisticados). Hoje o conjunto de guerras, ao redor do planeta, custa U$ 3,8 trilhões por ano. Essa cifra vai subir nos próximos anos.

Adicionalmente, Donald Trump exige que o resto do mundo pague mais caro pelo uso do dólar, como moeda reserva das transações internacionais, através da plataforma SWIFT. Numa verdadeira armadilha, o presidente da maior nação do planeta, trabalha pela valorização do euro, iene, yuan e franco suíço, frente ao dólar, numa espécie de reedição do Acordo de Plaza, assinado em 1985.

Para isso Trump exige, inclusive, uma queda rápida da taxa de juros praticada pelo FED americano ameaçando de demissão o seu presidente. A contrapartida disso seria o enfraquecimento das capacidades industriais da China, dos gansos asiáticos, da França e da Alemanha – o coração industrial da Europa.

Na periferia do sistema, o governo americano é ainda mais duro. Nesse contexto, a conjuntura revela-se desafiadora, notadamente, pela impraticável tarifa de 50% imposta ao Brasil. Nosso país perde vigor industrial e, ao mesmo tempo, conta com a exportação de matérias primas alimentares, minerais e energéticas para gerar dólares.

Essa ação imposta aos produtos nacionais exigirá, das elites políticas, empresariais, sindicais e comunitárias nacionais, o planejamento imediato de instrumentos jurídicos, políticos econômicos e sociais para garantir novos caminhos para a oitava economia do planeta.

Esse cenário aparente de caos terá impacto direto sobre o comportamento da produção e do emprego em nossa economia. Nosso PIB é muito sensível, com relação às exportações. Por outro lado, com a tendência de menor entrada de dólares, a taxa de câmbio vai se desvalorizar e os investidores em ativos cotados em reais terão aversão ao risco, possivelmente retirando parte de suas aplicações da frágil moeda nacional, representando saída líquida de capitais.

Dólar mais caro, além de dificultar a queda nominal da caríssima taxa de juros, também pressionaria os preços dos alimentos e os índices (IGPM/IGP-DI) que corrigem serviços públicos privatizados. Inflação tendendo à reaceleração produzirá contração no poder de compra dos salários. Rendas salariais em queda contribuem para contrair o consumo das famílias e lucros empresariais. Uma tempestade perfeita!

*Ranulfo Vidigal – economista

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