Grupos de mensagens viraram canal de venda de animais silvestres no Rio. Polícia e Ibama investigam esquema que movimenta araras e primatas.
Grupos de aplicativos de mensagens se tornaram canal de comércio ilegal de animais silvestres no Rio de Janeiro. Vendedores oferecem araras, macacos e outras espécies para quem busca comprar.
O contato entre vendedor e comprador costuma incluir envio de imagens e gravações do animal. Descontos são oferecidos como forma de acelerar o fechamento do negócio.
Entre as ofertas identificadas está um filhote de arara cotado em R$ 1,5 mil. Primatas, como macacos-prego e micos, também aparecem entre os anúncios divulgados nos grupos.
Um dos vendedores negociava um macaco-prego mantido, segundo ele, no Complexo do Alemão. O preço pedido caiu de R$ 4,5 mil para R$ 3,9 mil durante a conversa.
Outro anunciante oferecia um filhote de mico com cerca de uma semana em seu poder. Segundo ele, o animal já estava adaptado à presença humana e não reagia com agressividade.
O vendedor descreveu o comportamento do bicho como dócil: “Não morde, não faz nada. Você vai pegar, colocar no ombro e andar normalmente”.
O valor inicial do mico, de R$ 650, caiu para R$ 400 na negociação. A entrega ficaria a cargo de um conhecido do vendedor, por meio de corrida de aplicativo.
Comprador também responde por crime
Manter ou comercializar animais silvestres sem autorização ambiental é infração prevista em lei federal. A pena pode chegar a um ano de prisão, além de multa.
Não existe, atualmente, criadouro de macacos com registro no Ibama. A legislação também não inclui primatas entre as espécies autorizadas para criação doméstica no país.
A Polícia Civil apura o comércio tanto em feiras físicas quanto nas transações digitais. A delegada Josy Lima avalia que a exposição pública facilita o mapeamento de suspeitos.
Segundo ela, “em menos de um ano, conseguimos apreender mais de 1,5 mil animais silvestres por conta dessa agilidade” no rastreamento dos anúncios.
A delegada relata ainda cruzamento entre as redes de tráfico de animais e de drogas no estado. Pessoas ligadas a um esquema costumam manter vínculo com o outro.
Ela reforça que a responsabilidade penal recai também sobre o comprador. Adquirir um animal de origem ilegal configura o mesmo tipo de infração cometida pelo vendedor.
Docilidade pode mascarar sofrimento animal
Um macaco-prego apreendido em ação policial está há duas semanas no Instituto Vida Livre, organização dedicada a resgate e reabilitação de fauna silvestre.
O animal passou por processo de domesticação antes do resgate. Agora recebe acompanhamento para recuperar padrões naturais de comportamento, com vistas a uma eventual soltura.
Roched Seba, diretor da instituição, explica que um animal aparentemente manso pode carregar marcas de sofrimento provocadas pela retirada do habitat e pelo convívio forçado com pessoas.
Para ele, a aproximação excessiva entre humanos e espécies silvestres distorce o comportamento natural dos animais. Essa dependência cria uma falsa percepção de bem-estar entre os tutores.
O instituto também abriga outros resgates ligados ao tráfico, entre eles jabutis, uma iguana e diferentes espécies de aves recolhidas em ações no estado.
Além do impacto sobre o bem-estar animal, a captura ilegal de espécies silvestres representa risco sanitário. Animais fora de seu ambiente podem transmitir doenças sem controle.
Seba defende a permanência das espécies em seu habitat de origem como única forma de proteção real diante do que classifica como cenário de extinção acelerada.
O Ibama afirma manter monitoramento de anúncios em grupos de mensagens como parte do combate ao tráfico. Casos identificados resultam em medida administrativa e encaminhamento ao Ministério Público.



