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Fictor é apontada como ‘motor financeiro’ de mortes ligadas a Adilsinho

Polícia Civil aponta que a Fictor Holding foi usada para lavar dinheiro e custear crimes ligados a Adilsinho, segundo investigação sobre morte de advogado.

A Polícia Civil do Rio concluiu que a Fictor Holding funcionava como um “motor financeiro” para custear homicídios ligados a Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. O relatório cita repasses a integrantes da organização.

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Adilsinho foi denunciado pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) e se tornou réu como mandante da morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo, assassinado em fevereiro de 2024. Um PM foi preso na segunda-feira (28).

Segundo o relatório da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), valores transferidos pela holding chegaram a pessoas ligadas à organização criminosa e foram usados para despesas relacionadas à execução de crimes.

Dinheiro para carro usado na vigilância

As investigações apontam que Francisca Machado, esposa do PM Leandro Machado, recebeu R$ 50 mil da Fictor Holding. Para a polícia, a conta dela era usada como intermediária para receber recursos destinados ao grupo.

Entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2024, Francisca transferiu mais de R$ 15 mil para a locadora Horizonte 16. O dinheiro foi usado para pagar o aluguel de um Gol branco que acompanhou Crespo antes do assassinato.

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O mesmo carro também teria sido usado para vigiar Thiago Trigueiro Gomes, morto em janeiro de 2024, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. A investigação relaciona o crime à atuação no mercado ilegal de cigarros.

A polícia também afirma que Francisca realizou pagamentos de “diárias” para criminosos ligados ao grupo. Entre eles está Ryan Patrick Barboza de Oliveira, o “Motinha”, que recebeu uma transferência de R$ 150.

Segundo a investigação, Ryan era responsável por usar uma motocicleta para acompanhar possíveis alvos antes dos homicídios. Ele foi alvo de mandado de prisão pela morte de Rodrigo Crespo.

Ryan já estava preso por participação na morte de Antônio Gaspazianne Mesquita Chaves, dono do bar Parada Obrigatória, em Vila Isabel. Adilsinho também é apontado como mandante desse homicídio.

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Polícia aponta lavagem de dinheiro

O relatório do Laboratório de Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil analisou movimentações financeiras entre janeiro de 2023 e 31 de maio de 2024.

Nesse período, a Fictor recebeu mais de 200 depósitos em espécie em agências bancárias de Duque de Caxias e Belford Roxo. A maior parte das operações tinha valores inferiores a R$ 10 mil.

A polícia classificou a prática como “smurfing”, estratégia que consiste na divisão de grandes quantias em diversos depósitos menores para dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

Após os depósitos, segundo a investigação, parte do dinheiro era transferida para pessoas apontadas como integrantes ou colaboradores da organização ligada a Adilsinho.

Um dos citados é Evandro Marques da Silva, conhecido como Magrinho, que recebeu R$ 1,186 milhão da Fictor durante o período analisado pela polícia.

Segundo os investigadores, parte desse dinheiro ajudou a manter a estrutura logística dos homicídios atribuídos à organização criminosa. Da conta de Magrinho também saíram mais de R$ 330 mil para uma distribuidora de bebidas.

A empresa é apontada pela Polícia Civil como possível instrumento de lavagem de dinheiro. A distribuidora também transferiu mais de R$ 60 mil para contas ligadas a Adilsinho, segundo o relatório.

Bar recebeu mais de R$ 500 mil

A investigação identificou ainda movimentações envolvendo um pequeno bar localizado na Avenida Perimetral, em Duque de Caxias. O estabelecimento tinha faturamento mensal estimado em R$ 20 mil, mas recebeu mais de R$ 500 mil em créditos em 2023.

Desse montante, pelo menos R$ 18 mil foram enviados para Magrinho no mesmo ano. Para a polícia, o estabelecimento pode ter funcionado como uma “conta de passagem” para movimentar dinheiro de origem ilícita.

Ex-PM recebeu R$ 33 mil

Entre janeiro e junho de 2023, Rafael do Nascimento Dutra, conhecido como Sem Alma, recebeu R$ 33 mil de Magrinho, segundo o relatório. Ele foi expulso da Polícia Militar e é citado em investigações de homicídios.

Até a publicação da reportagem, Sem Alma tinha seis mandados de prisão relacionados a diferentes homicídios que, segundo as investigações, teriam sido cometidos a mando da organização de Adilsinho.

Em 2 de janeiro de 2023, ele recebeu 11 depósitos sucessivos em dinheiro, todos inferiores a R$ 2 mil. A partir de junho daquele ano, os valores passaram a ser destinados ao PM Leandro Machado.

A polícia também identificou pagamentos para integrantes da segurança de um dos homens apontados como braço direito de Adilsinho. Os valores incluíam diárias, escalas e despesas relacionadas à estrutura do grupo.

Entre os beneficiários está o PM Vitor Hugo Henrichs Mello, lotado no 15º BPM (Duque de Caxias), que recebeu R$ 37,6 mil no período analisado.

Vitor Hugo foi preso durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão relacionados à investigação da morte de Rodrigo Crespo.

Outro investigado, Uanderson Costa de Souza, o PQD, recebeu pelo menos R$ 38,8 mil da Fictor Holding entre janeiro de 2023 e maio de 2024, segundo a Polícia Civil.

A análise financeira também identificou que PQD devolveu cerca de R$ 15 mil para a Fictor por meio de transações sem justificativa identificada pelos investigadores.

PQD é apontado como um dos matadores da organização de Adilsinho. Em 2025, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão em uma operação da Delegacia de Homicídios da Capital.

Investigação da PF

Em março de 2026, uma operação da Polícia Federal apontou que o grupo Fictor e células do Comando Vermelho (CV) utilizavam um esquema semelhante para lavagem de dinheiro.

Segundo a investigação, recursos eram usados para criar simulações de fluxo de caixa, estruturar empresas de fachada e operar mecanismos destinados a dificultar a identificação da origem do dinheiro.

A operação ocorreu em três estados e investigou fraudes que poderiam ultrapassar R$ 500 milhões. O CEO da Fictor, Rafael de Gois, foi alvo de mandados de busca e apreensão.

O que dizem os envolvidos

Em nota, a Fictor Holding afirmou que os pagamentos ocorreram entre 2023 e 2024 por meio do sistema bancário regular e que a empresa não tinha conhecimento de condenações ou investigações relacionadas a crimes.

A empresa também declarou que “rejeita qualquer interpretação de que tenha conscientemente participado de crimes de lavagem de dinheiro ou financiamento de atividades criminosas”.

A defesa de Adilsinho afirmou que o cliente desconhece a empresa mencionada e as transações financeiras citadas na reportagem. Os advogados também reiteraram a inocência dele em relação aos crimes investigados.

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