PF faz buscas em casas de luxo e prende deputado estadual Márcio Canella e ex-secretário de Polícia Civil em investigação sobre lavagem de dinheiro.
Imóveis de luxo em Icaraí, Camboinhas, Itaipava e Angra dos Reis foram alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (15), na 8ª fase da Operação Unha e Carne. A ação prendeu o deputado estadual eleito Márcio Canella e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.
As propriedades têm estruturas de lazer que incluem piscinas, adegas, áreas para receber convidados, academias particulares e quadras de areia. Em uma das residências, os agentes encontraram cerca de R$ 40 mil guardados no espaço destinado ao armazenamento de vinhos.
A operação investiga um grupo suspeito de usar 96 postos de combustíveis no Grande Rio e na Região dos Lagos para lavar dinheiro. Segundo a PF, o esquema envolveria agentes públicos e articulações políticas para sustentar as atividades econômicas investigadas.
Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão, cumpridos no Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios.
As ordens foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação também está relacionada à ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que prevê, entre outras medidas, a apuração de relações entre agentes públicos e grupos criminosos no estado.
Um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que o grupo investigado movimentou mais de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026.
Moraes também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas. Desse total, 96 são postos de combustíveis ou revendas associadas.
Segundo a Polícia Federal, os investigados podem responder, conforme a participação atribuída a cada um, por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.

Quem são os principais investigados na Operação Unha e Carne
Márcio Canella é apontado como articulador político
Márcio Correia de Oliveira, conhecido como Márcio Canella, é ex-prefeito de Belford Roxo e foi eleito deputado estadual com a segunda maior votação do estado do Rio de Janeiro.
Segundo a investigação, ele atuava como articulador político do grupo e fazia a ligação entre agentes públicos e a estrutura econômica formada em torno dos postos de combustíveis.
Os investigadores afirmam que Canella articulou a indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, posteriormente, para a Secretaria de Estado de Polícia Civil.

A apuração também identificou créditos de aproximadamente R$ 2,59 milhões provenientes da Brumar Empreendimentos, além de mais de R$ 139 mil em dinheiro. Segundo os investigadores, a origem desses valores não foi esclarecida.
Canella foi indiciado por organização criminosa armada e lavagem de dinheiro. Em declaração sobre o caso, afirmou: “Confio em Deus e na Justiça e tenho certeza de que tudo será esclarecido”.
Marcus Amim é suspeito de dar proteção institucional ao grupo
Marcus Vinicius Amim Fernandes é delegado da Polícia Civil. Ele comandou o Detran-RJ antes de assumir a Secretaria de Estado de Polícia Civil.
De acordo com a investigação, Amim teria utilizado os cargos públicos que ocupou para oferecer proteção institucional às atividades do grupo. Os investigadores também o apontam como sócio oculto do posto Gasmix Alcântara, ao lado dos irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.

Outro ponto da apuração envolve a Mamim Consultoria, empresa ligada ao delegado. Segundo os investigadores, a companhia recebeu R$ 1,821 milhão da ADM Oil por meio de um contrato de consultoria considerado fictício.
Pablo Russo é apontado como operador de rede de combustíveis
Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é inspetor da Polícia Civil e apontado pela investigação como principal operador de fato de uma ampla rede de postos de combustíveis.
A apuração indica que ele atuava em mais de 20 postos e controlava cerca de 43 estabelecimentos de bandeira BR. Formalmente, as empresas estariam registradas em nome da mulher dele e de uma sócia dela.
Os investigadores também afirmam que Pablo tinha acesso antecipado a agendas sigilosas de fiscalização do Procon e da Secretaria Estadual de Defesa do Consumidor, por intermédio de um advogado.
Ele foi indiciado por organização criminosa armada, corrupção ativa, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis, formação de cartel e lavagem de dinheiro.
José Carlos Alves de Souza Júnior é suspeito de gerir recursos
José Carlos Alves de Souza Júnior, conhecido como Júnior, também é inspetor da Polícia Civil. Segundo a investigação, ele exercia controle de fato sobre parte da estrutura econômica do grupo, apesar de não aparecer formalmente como sócio ou administrador da maioria das empresas.
Os investigadores afirmam que Júnior utilizava a mulher, Luisi Correa Pinho, para ocultar a titularidade de bens e negócios e participava da distribuição de recursos entre integrantes do grupo e agentes públicos.
A apuração também atribui a ele ameaças contra um ex-sócio que cobrava valores investidos.
Christiano Gaspar Fernandes é investigado por sociedade oculta
Christiano Gaspar Fernandes é inspetor da Polícia Civil e ocupa o cargo de secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo.
Segundo a investigação, ele seria sócio oculto da Gasmix Alcântara Posto de Gasolina, junto com o irmão, Giovanni Gaspar Fernandes.
Os investigadores afirmam que Christiano recebia repasses relacionados ao posto Gas Mix. Em registros financeiros, ele apareceria sob o codinome “Meninos”, também utilizado em referências a Giovanni.
Giovanni Gaspar Fernandes é ligado a posto investigado
Giovanni Gaspar Fernandes, também inspetor da Polícia Civil, é apontado como sócio oculto da Gasmix Alcântara nas mesmas condições atribuídas ao irmão, Christiano.
A investigação também examina operações financeiras envolvendo a Vitaserv, empresa ligada à mulher de Giovanni, Taissa Burgos Fernandes.
Segundo os investigadores, a Vitaserv emitiu R$ 200 mil em notas fiscais referentes a serviços de jardinagem para Luisi Correa Pinho. A apuração considera as notas fictícias e aponta que a empresa não tinha empregados registrados.
Outros seis investigados são alvo de buscas
Além dos seis alvos com prisão preventiva decretada, outros seis investigados foram incluídos nos mandados de busca e apreensão da 8ª fase da Operação Unha e Carne. Um deles também foi afastado cautelarmente da função pública.
Glaucio Paz da Silva
Glaucio Paz da Silva sucedeu Marcus Amim na presidência do Detran-RJ. Segundo a investigação, o nome dele aparece repetidamente em anotações manuscritas como destinatário de repasses provenientes de postos vinculados ao grupo.
Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares
Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares é apontado como uma pessoa utilizada por Júnior para ocultar e movimentar recursos. De acordo com a apuração, ele recebeu transferências de Luana Oliveira que somaram R$ 93.062,84. Os investigadores consideram os valores compatíveis com pagamentos feitos “por fora”.
Fábio Henrique Ferreira dos Santos
Fábio Henrique Ferreira dos Santos é escrivão da Polícia Federal e foi afastado cautelarmente da função pública. Segundo a investigação, ele teria repassado uma informação sigilosa a Pablo Russo na véspera da 6ª fase da Operação Unha e Carne.
A apuração aponta que a comunicação ocorreu por meio de mensagens configuradas para desaparecer após 24 horas.
Diogo Dantas Aguiar
Diogo Dantas Aguiar é sobrinho de uma sócia da Opção Ativa, empresa investigada em um caso de contratação direta ilegal e circulação de recursos públicos entre pessoas e empresas do mesmo grupo familiar.
Segundo os investigadores, Diogo recebeu R$ 160.773 dentro desse circuito de transferências financeiras.
Gabriel da Silva Bastos, o Calcinha
Gabriel da Silva Bastos, conhecido como Calcinha, é apontado como responsável, junto com Pablo Russo, pelo acesso e pela gestão da DAGG Tavares Projetos Estruturais.
De acordo com a investigação, os dois compartilhavam informações de acesso à empresa e dados sobre pagamentos públicos recebidos. Gabriel também teria utilizado a conta bancária da mãe para pagar despesas pessoais de Pablo.
Marcio Samary Machado, o Marcio Nit
Marcio Samary Machado, conhecido como Marcio Nit, aparece na investigação em uma operação envolvendo um boleto de R$ 748.689,86. Segundo a apuração, Pablo Russo enviou o documento, emitido em nome de outra pessoa, e Marcio encaminhou, no dia seguinte, o comprovante de pagamento de um valor próximo, feito por uma empresa de terceiros.
Os investigadores também identificaram uma empresa ligada a Marcio que forneceu kits escolares em um contrato cuja execução coincidiu com propaganda política de Márcio Canella.







