A investigação sobre a rotina de uma creche para cães em Botafogo, na Zona Sul do Rio, terminou com o indiciamento dos dois responsáveis pelo estabelecimento por maus-tratos. A apuração teve como base vídeos, mensagens e depoimentos.
Os indiciados são a médica veterinária Luana Dames e o marido, Pedro Aires Torres, responsáveis pela Pituchos da Lu. Segundo a Polícia Civil, o material analisado durante o inquérito apontou relatos de agressões e situações de confinamento envolvendo animais.
A apuração começou depois que o monitor pet Gênesis Sousa Cardoso, que trabalhou no estabelecimento, procurou a polícia. Ele apresentou gravações feitas no interior da creche e conversas que, segundo seu relato, registravam orientações dadas pelos responsáveis.
Entre os registros entregues aos investigadores estão imagens de um funcionário agredindo um cachorro com tapas e, em outro momento, chutando o animal. Uma terceira gravação mostra um cão sendo retirado de um cômodo pela mão enquanto grita.
Também foram encontradas imagens de cães presos por correntes curtas em um espaço semelhante a um banheiro. Em outro registro, aparece um pneu com água parada e larvas.
Para a delegada Natália Caliman, da 10ª DP (Botafogo), os elementos reunidos durante a investigação incluem ainda depoimentos de antigos funcionários e relatos apresentados por pessoas que deixavam seus animais na creche.
Segundo a delegada, alguns ex-funcionários disseram ter presenciado agressões. Tutores também relataram que receberam os cães de volta com ferimentos após períodos no estabelecimento.
As conversas analisadas pela polícia fazem referência ao comportamento de alguns animais. Em uma delas, Pedro menciona o husky Rio, que estaria latindo com frequência. Em outra mensagem relacionada ao mesmo cachorro, aparece a orientação para que alguém “dê uma” no animal.
Há ainda mensagens envolvendo outros cães. Uma delas menciona a cadela Princesa e recomenda o uso de focinheira. Outra se refere ao animal chamado Pingo e orienta que ele fosse colocado no corredor e atingido com uma revista.
Tutores dizem ter percebido mudanças após passagem pela creche
Um dos relatos incluídos na investigação é o de Gabriel Cecilio, gerente de projetos e tutor do husky Rio. Ele contou que costumava deixar o animal na Pituchos da Lu e que só tomou conhecimento das denúncias depois de ter acesso ao material reunido no inquérito.
Gabriel afirmou que o cachorro retornava para casa com muita sede e relatou suspeita de que o animal permanecesse preso pelo pescoço durante o período na creche. A declaração integra o conjunto de informações analisadas pela polícia.
Outro tutor, Daniel Corbacho, também procurou as autoridades. Ele afirmou que o cachorro da família frequentava o estabelecimento e que a família acreditava estar contratando um serviço voltado à socialização e ao bem-estar do animal.
A jornalista Bianca, tutora do mesmo cão, relatou uma alteração no comportamento do animal depois que ele deixou de frequentar o estabelecimento. Segundo ela, o cachorro passou a reagir de maneira agressiva diante de outros cães.
“Ele ficou reativo com outros cachorros. Colocamos na coleira e, quando vê outro cão, tenta atacar. Ele nunca foi assim. Imagino que isso tenha relação com o que passava lá dentro”, afirmou.
Polícia diz que responsáveis não prestaram depoimento
Durante a investigação, Luana Dames e Pedro Aires Torres foram chamados duas vezes para prestar esclarecimentos na delegacia. De acordo com a Polícia Civil, os dois não compareceram às convocações.
Com a conclusão do inquérito, o casal foi indiciado por maus-tratos a animais. O procedimento segue para análise do Ministério Público.
A delegada afirmou que os investigadores também encontraram referências a um espaço chamado de “solitária”. Segundo Natália Caliman, os relatos indicam que os animais permaneciam confinados em condições nas quais não conseguiriam deitar adequadamente e ficariam afastados de água e comida.
O ex-funcionário Gênesis Sousa Cardoso afirmou que passou a questionar a forma como os animais eram tratados desde o período em que começou a trabalhar no local.
“Quando comecei a trabalhar, achei esquisito porque os donos falavam que quando os cachorros começavam a latir muito tinha que pegar jornal ou revista e bater no focinho deles. Eu questionei aquilo e, com o passar do tempo, a situação foi piorando”, relatou.
Pituchos da Lu contesta versão apresentada no inquérito
Em posicionamento publicado no site da empresa, a Pituchos da Lu negou as acusações e afirmou ter fornecido às autoridades os materiais necessários para a apuração.
A empresa sustenta que os vídeos divulgados foram editados ou retirados de contexto. Também afirma que a contenção dos animais ocorria somente por períodos curtos e durante a alimentação.
Segundo a Pituchos da Lu, os vídeos “não retratam a integralidade dos fatos”. A empresa declarou ainda que continua colaborando com as autoridades e aguarda a conclusão oficial do caso.
O estabelecimento também afirmou que sua atuação é baseada na transparência, no compromisso com os clientes e na dedicação dos profissionais. A manifestação representa a versão da empresa diante das acusações investigadas pela Polícia Civil.







