III Tribunal do Júri julga três denunciados pela morte do advogado Rodrigo Crespo, em 2024, em crime ligado a disputas de apostas online.
O III Tribunal do Júri da Capital vai julgar, a partir desta quinta-feira (5), três acusados de envolvimento na morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo, em 26 de fevereiro de 2024. Ele foi morto a tiros na Avenida Marechal Câmara, no Centro do Rio, em frente ao escritório do qual era sócio.
Serão levados a julgamento:
- Leandro Machado da Silva, o “Cara de Pedra”: policial militar que, segundo as investigações, providenciou os carros usados no crime. Ele se entregou na Delegacia de Homicídios dias após o assassinato.
- Cezar Daniel Mondego de Souza, o “Russo”: apontado como responsável por monitorar a vítima.
- Eduardo Sobreira de Moraes: apontado pela polícia como o responsável por seguir os passos de Rodrigo, dirigindo o carro para Cezar enquanto acompanhavam a movimentação da vítima antes do assassinato.
Os três se tornaram réus em abril de 2024, quando a denúncia do Ministério Público foi aceita. Na decisão, Leandro, policial militar, foi afastado do cargo. As investigações indicam que os acusados se encontraram antes e depois do crime, inclusive perto do batalhão onde o PM trabalhava.
De acordo com a Delegacia de Homicídios da Capital, os criminosos já estariam atrás de Rodrigo desde 5 de outubro de 2023. Naquele dia, anotações com as placas dos veículos usados por Crespo foram encontradas nos celulares de um dos investigados, quando ele esteve em uma festa em Ipanema.
O atirador que atingiu Rodrigo pelas costas ainda não foi identificado. O Ministério Público sustenta que o homicídio foi motivado por disputa ligada a jogos de apostas online. A Promotoria afirma que o crime ocorreu em emboscada, com o uso de pistola calibre 9 mm, arma de fogo de uso restrito.
Crimes que serão analisados pelo júri
Segundo a denúncia, o assassinato teria sido praticado para assegurar a execução ou a vantagem de outros crimes. Esses delitos estariam vinculados a uma organização criminosa que atuaria no setor de apostas e teria interesse direto na morte do advogado.
Os réus respondem por homicídio qualificado. As qualificadoras apontadas pelo Ministério Público são:
- motivo torpe, relacionado à atuação de organização criminosa em apostas online;
- recurso que dificultou a defesa da vítima, já que os disparos teriam sido feitos pelas costas;
- prática do crime para garantir interesses de outros delitos;
- emprego de arma de fogo de uso restrito.
Etapas e regras do Tribunal do Júri
Crimes dolosos contra a vida, como homicídio, são julgados pelo Tribunal do Júri. Nesses casos, sete jurados, escolhidos entre cidadãos comuns, decidem se o réu será condenado ou absolvido com base nas provas apresentadas em plenário.
O processo é dividido em duas fases. Na primeira, o juiz avalia se há elementos suficientes para levar o caso a júri popular. Ao final dessa etapa, pode pronunciar o réu (encaminhá-lo ao júri), impronunciar, desclassificar o crime ou absolvê-lo sumariamente, encerrando o processo.
Na segunda fase, o julgamento ocorre em plenário, com a participação do juiz-presidente e dos sete jurados sorteados. Nessa etapa, são produzidas as provas orais, feitos os debates entre acusação e defesa e, ao final, os jurados votam de forma sigilosa sobre os quesitos formulados pelo magistrado.
Como deve ocorrer a sessão desta quinta
O juiz abrirá os trabalhos com a presença mínima de 15 jurados. Sete deles serão sorteados para compor o Conselho de Sentença. Acusação e defesa podem recusar até três jurados cada, sem necessidade de justificar, o que pode alterar a formação final do colegiado.
Durante a sessão, serão ouvidas as testemunhas arroladas pelo Ministério Público e pela defesa, além do interrogatório dos réus. Encerrada a fase de instrução, começam os debates orais, nos quais as partes expõem suas versões e interpretam as provas produzidas.
O Ministério Público terá uma hora e meia para apresentar a acusação, e a defesa disporá do mesmo tempo. Em seguida, haverá uma hora de réplica para a Promotoria e uma hora de tréplica para os advogados. Em caso de mais de um réu, esses prazos podem ser ampliados pelo juiz.
Após os debates, os jurados podem pedir esclarecimentos adicionais ao juiz ou às partes antes de se reunirem em sala secreta para votar. As decisões são tomadas por maioria simples, sem que os votos sejam revelados individualmente ao público.
Se os jurados reconhecerem a materialidade do crime e a autoria, precisarão decidir sobre eventual absolvição, causas de diminuição de pena ou incidência das qualificadoras. Com base nas respostas, o juiz fixará a pena e proferirá a sentença em plenário.
Suspeito que ajudou a monitorar a vítima
As investigações apontam que uma quarta pessoa também teria participado do crime: Ryan Patrick Barboza de Oliveira. Segundo a Delegacia de Homicídios da Capital, ele ajudou a monitorar os passos de Rodrigo, inclusive no dia 26 de fevereiro de 2024, quando o homicídio ocorreu.
A análise do telefone de Ryan indica que ele acompanhou Rodrigo no Centro do Rio e permaneceu na região até as 11h daquele dia. Depois desse horário, o monitoramento teria sido assumido por Cezar Daniel Mondego de Souza e Eduardo Sobreira de Moraes, de acordo com a polícia.
Ryan foi preso por participação em outro crime atribuído ao mesmo grupo: o assassinato do dono do bar Parada Obrigatória, Antônio Gaspaziane Mesquita Chaves. Ele não será julgado na sessão desta quinta-feira, que se restringe aos três réus principais do caso Crespo.
Bicheiro alvo de busca em apuração paralela
Outro investigado por possível ligação com o crime, mas que não será julgado nesta quinta, é o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, preso no último dia 26 em outras investigações conduzidas pela Polícia Civil.
Em 9 de abril de 2024, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão contra Adilsinho em procedimento relacionado à morte de Rodrigo Crespo. A apuração apura possível vínculo com esquemas de contrabando de cigarros e disputas de interesse no meio criminoso.
Em nota, a defesa de Adilsinho afirmou que ele “nega qualquer envolvimento com os fatos noticiados, não tendo qualquer relação com o contrabando de cigarros ou assassinatos, repudiando a vinculação de seu nome aos referidos eventos”. O texto, assinado pelo advogado Ricardo Braga, diz ainda que o investigado confia na Justiça e pretende comprovar sua inocência.
Investigados pela morte do advogado, Leandro Machado, Cezar Mondego, Eduardo Sobreira e Ryan Patrick também foram indiciados por participação em outro crime atribuído a grupo ligado à chamada máfia dos cigarros de Adilsinho: a execução do empresário Thiago Trigueiro Gomes, de 37 anos, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.







